quarta, 18 Jul , 2018
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ARVELINO BUSSO: 90 ANOS DE VITALIDADE, AMOR À FAMÍLIA E PAIXÃO À CARPINTARIA

há 1 semana

Um homem sereno, de uma simpatia peculiar que conquista a todos e uma vitalidade de dar inveja aos bem mais jovens. Assim é nosso entrevistado deste mês: Com vocês, o senhor Arvelino Busso: um grande exemplo de ser humano, pai, avô e profissional, que aos 90 anos, completados no último dia 20 maio, esbanja muita sabedoria e amor pela vida.

Ele recebeu a equipe Evidência Revista em sua residência e contou detalhes de sua vasta carreira profissional, que começou na roça até chegar à cidade, onde aprendeu sozinho tudo sobre carpintaria, uma de suas paixões que permanece viva até hoje, já que ainda ajuda e aconselha um de seus filhos que tem a mesma profissão.

O senhor Arvelino é muito família e se emocionou ao contar como criou seus 10 filhos ao lado da saudosa esposa, senhora Pascoalina Gobati Busso, cujo casamento foi vivido ao longo de 63 anos.

“Foram tempos difíceis, porém era muito mais fácil criar os filhos naquela época do que hoje em dia”, disse, elencando uma série de situações as quais vivenciou para proporcionar uma vida mais tranquila à sua família. Confiram a entrevista completa, elaborada pela jornalista Natália Tiezzi Manetta, com fotos de Pedro Júlio Photografias nas próximas páginas.

DEZ FILHOS E UMA MÃE MUITO ZELOSA

Durante os 63 anos em que permaneceram casados, Arvelino e Pascoalina tiveram os filhos Antônio José, Sérgio, Natal, Mauro, Luís, Isabel, Rubens, João Lucindo, Carlos Alberto e Paulo. “Nenhum deles nos deu trabalho. Claro que quando crianças faziam suas peraltices, mas nada que a dona Pascoalina não soubesse corrigir, aliás, ela foi uma mãe muito zelosa e enérgica”, comentou.

O primeiro filho chegou quando Arvelino tinha apenas 20 anos e ainda morava na fazenda. “Foram tempos difíceis, principalmente porque após eu vir para a cidade trabalhar a Pascoalina teve que cuidar da casa sozinha. Aliás, mesmo depois que passamos a morar na cidade foi ela que assumiu a criação de nossos filhos, pois minha profissão fazia com que eu ficasse muito ausente de casa”, disse.

O carinho com que Arvelino fala da esposa emocionou a todos, inclusive ele próprio, mesmo após quatro anos de seu falecimento. “Digo sempre que se não fosse por ela hoje eu não teria nada na vida. Não adianta o homem ser trabalhador, ter um bom serviço se a mulher não estiver ali, ao lado dele, sendo companheira, ajudando-o com a família e também nas finanças. Assim era a Pascoalina, uma mulher de muita fibra e que, sem dúvida, me ajudou muito a conquistar tudo que tenho e a educar muito bem meus filhos”, contou, muito emocionado.

A boa educação que o casal sempre proporcionou aos 10 filhos fez com que todos se tornassem cidadãos de respeito e bons profissionais. “Procuramos mostrar o caminho certo para eles. Tenho orgulho em dizer que os educamos para se tornarem pessoas de bem. Não pudemos dar muita coisa, naquela época era comida e moradia, já que os estudos foram custeados por eles próprios. Sei que também não foi fácil para eles. O Serginho, por exemplo, fez muita faxina em oficina para poder estudar. Nada caiu do céu para nenhum deles”, destacou.

E a família do senhor Arvelino aumentou. Além dos 10 filhos, ele tem 23 netos, além de 15 bisnetos. “É bom vê-los crescer e, quando possível, juntar todos aqui, como aconteceu agora no meu aniversário. São gerações que estão tendo a oportunidade de aprendizado constante, pois eu aprendo muito com eles e eles comigo”, ressaltou.

A PAIXÃO PELA CARPINTARIA: EXCELÊNCIA PROFISSIONAL

Verdadeiro mestre em carpintaria, o senhor Arvelino contou muitas histórias de sua vida profissional, sempre explicando, com detalhes, os trabalhos que já realizou. “Perdi meu pai quando tinha apenas 9 anos. Imaginem vocês uma criança de nove anos sem a figura paterna. Mas enfrentei a vida sempre com muita vontade de aprender e disposição, duas características que me ajudaram muito na minha profissão”, afirmou.

Antes, porém, de exercer a profissão de carpinteiro, Arvelino trabalhou por muitos anos nas antigas ‘máquinas de café e arroz’, muito comuns nas fazendas da década de 40. “Eu tinha uns 18 anos quando comecei a trabalhar nessas máquinas. Tive imprevistos, obstáculos, mas também muita força de vontade. Acho que foi por isso que fiquei poucos períodos sem trabalhar”, destacou.

A carpintaria entrou na vida do senhor Arvelino quando passou a vir mais para a cidade. “Gostava muito da fazenda, mas chegou uma época que tive que procurar mais coisas para fazer. Lembro que comprava molduras de quadro em madeira e colocava fotografias para os vizinhos na fazenda.  Passei a frequentar carpintarias, prestar atenção em como todos ali trabalhavam e daí fui aprendendo o ofício de carpinteiro sozinho, pois nunca ninguém me ensinou. Por isso que digo que quando a pessoa tem vontade e coragem, vence. Acho que sou um exemplo disso”.

Arvelino se aperfeiçoou tanto na profissão que foi o responsável pela construção de centenas de estruturas em madeira para telhados, escadarias de casas, prédios e instituições em São José. “Somente na Vila Pereira foram mais de 40 telhados. Também participei da construção da sede do Rio Pardo Futebol Clube, da Casa Braghetta, do primeiro arco da Igreja Matriz, além do telhado da Santa Casa de Misericórdia”, contou, orgulhoso.

Mas, quem escuta o senhor Arvelino falar com orgulho das casas e construções pomposas as quais colocou em prática sem trabalho, não imagina os obstáculos e até perigos enfrentados por ele ao longo de décadas de profissão.

“Em várias épocas passava a semana inteira fora de casa, pois trabalhava muito em cidades vizinhas. Trabalhei na construção da Usina Limoeiro, Usina Euclides da Cunha, fiz diversos trabalhos em Guaxupé, São Paulo, Condomínio Alfaville, em Barueri, entre tantas outras localidades. Isso fez com que eu me afastasse de casa... Mas eu sabia que podia contar sempre com a dona Pascoalina, que cuidava de tudo enquanto eu estava fora trabalhando”.

Muitas vezes, para garantir o pão de cada dia, o senhor Arvelino dormia em pousadas e dividia os pequenos espaços até mesmo com desconhecidos. “Certa vez um homem que estava conosco em uma dessas pousadas era um ladrão fugitivo da Justiça. Fico pensando nos perigos que passávamos, mas não tinha outro jeito: era rezar e enfrentá-los”.

Aos finais de semana, quando voltava para São José, o curto período não era de descanso, mas de um pouco mais de trabalho. “Nesta época me lembro que estava trabalhando na construção do Velório Municipal, além de outras construções as quais só podia me dedicar aos finais de semana. Nada foi fácil. Confesso que por vezes me sentia ausente de meus filhos, mas pude contar sempre com minha finada esposa, que fez, muitas vezes, o papel de mãe e pai”. 

BONS PATRÕES E AMIGOS

Arvelino prestou seus serviços para muitos ‘patrões’, como ele costuma dizer. “Quando residia na fazenda tive patrões enérgicos e difíceis de lidar, que até me desentendi em algumas situações, porém, agradeço por ter convivido com eles, pois aprendi muita coisa e principalmente a lidar com pessoas diferentes do meu jeito de pensar. Sempre tiramos alguma lição daqueles que não pensam e não agem como nós”, salientou.

Na carpintaria não foi diferente. Arvelino disse que trabalhou com muitas pessoas que considerava difíceis de conviver, mas que se tornaram grandes amigos. “Em qualquer profissão vamos encontrar essas pessoas mais enérgicas, às vezes até mal humoradas, mas o importante é cada um respeitar o outro. Sempre respeitei e fui muito respeitado nos trabalhos que fiz e pelas pessoas que trabalhei em equipe. Boa parte delas tenho amizade até hoje”.

DE PAI PARA FILHO

Um dos filhos do senhor Arvelino, João Lucindo, seguiu os passos do pai na carpintaria. E até hoje ambos trocam ideias sobre a profissão para oferecer o melhor a seus clientes. “Sempre que posso ajudo meu filho na oficina. Dou algumas dicas, ele ora aceita, ora mostra outras alternativas. Esse ramo mudou muito. Na minha época praticamente tudo era feito pelas mãos do homem, hoje em dia as máquinas já fazem boa parte do trabalho”, observou.

O exímio trabalho do senhor Arvelino pode ser visto na casa de seus filhos, onde ele diz, orgulhoso, que ajudou a construir e em sua própria casa. Durante a entrevista ele mostrou, com todo carinho e riqueza de detalhes o que fez, desde os portais, o barzinho, a escadaria e até mesmo a esquadria em madeira do amplo salão onde ele costuma reunir a família em ocasiões especiais.

‘SEU ARVELINO’ POR ‘SEU ARVELINO’

A visita na casa do senhor Arvelino foi muito mais do que uma entrevista, foi um aprendizado. Sempre atento às perguntas, ele respondeu com a lucidez de um jovem de vinte e poucos anos... Suas histórias vão muito além da criação dos 10 filhos e do brilhantismo na carpintaria: são exemplos de persistência, vontade e, sobretudo, coragem para enfrentar qualquer obstáculo da vida.

Durante a sessão de fotos, ele mostrou à equipe Evidência Revista sua casa, os espaços que mais gosta e, curiosamente, poucos foram os cômodos onde não havia nenhuma imagem religiosa. Até mesmo em um dos quartos da área externa da casa, junto à churrasqueira, lá estava a imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Após muitas fotos e poses, sendo que o senhor Arvelino demonstrou muita gentileza e paciência, um cantinho chamou a atenção da equipe: era uma pequena oficina de carpintaria, uma verdadeira área de lazer onde ele costuma passar horas criando ou consertando alguma coisa. “Vejam minhas ferramentas. Olhem a quantidade de parafusos. Isso foi e continuará sendo minha paixão. Ainda bem que tenho esse cantinho”, concluiu nosso simpático entrevistado (com o serrote nas mãos).

Direção: Marcelo Trinca
Reportagem e Texto: Natalia Tiezzi
Filme e Produção: Agencia Boomerang
Fotos: Pedro Júlio Photografias

Confira o filme de making of: 

https://www.facebook.com/marceloftrinca/videos/1730677803706628/

 

 

 


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